Comunidade

26/08/2020 14:24

O racismo enterra sonhos!

Todos os crimes de racismo registrados recentemente têm uma vertente positiva: a oportunidade de falarmos mais sobre o assunto e, com isso, gerar conscientização. No século XXI, em meio a uma pandemia, e com as mãos atadas, tivemos que assistir boquiabertos atitudes covardes contra negros do mundo inteiro.
O racismo não atinge só um país ou povo, ele é enraizado na sociedade, é estrutural e de difícil superação. É um crime que afeta a vítima de forma muito peculiar, lhe tirando a autoestima, a autoconfiança, a sensação de pertencimento e causando medo, até mesmo, de circular pela rua. Medo de ter um carro bom e ser confundido com bandido, medo de entrar em uma loja...medo de viver.

Um jovem negro de apenas 18 anos, brasileiro, decidiu que compraria o primeiro presente do Dia dos Pais da sua vida. Fez um crediário e comprou um relógio de R$ 299,00, por meio de sua renda trabalhando como entregador de comida por aplicativos.
Ele só queria trocar o presente e foi ao Shopping Ilha Plaza, no Rio de Janeiro, quando foi arrastado para as escadarias por policiais que prestavam serviço na loja. Mateus Fernandes foi derrubado e ameaçado com uma pistola na cabeça. Funcionários e clientes, indignados, filmaram a ação truculenta.

Diego Alves da Silva, soldado do Batalhão de Choque, e Gabriel Guimarães Sá Izaú, sargento lotado no programa Segurança Presente, sequer pediram seus documentos e já classificaram aquele menino como “suspeito”, apenas por ser negro e estar em uma loja do shopping.

Dias antes, outro entregador de comida por aplicativo, Matheus Pires Barbosa, foi vítima de racismo no Condomínio Vila Bela Vista, na cidade de Valinhos no interior de São Paulo. Ele foi xingado de “lixo, macaco, pobre, burro e invejoso” durante seu trabalho.
O agressor, Mateus Abreu Almeida Prado Couto, morador do condomínio de luxo, se irou por ter que pegar o alimento na portaria e não na porta de casa, como ele queria. Tudo foi filmado por moradores e a repercussão dos dois casos ganhou notoriedade e ondas de protestos, assim como nos Estados Unidos, em maio deste ano, quando George Floyd foi assassinado por policiais durante uma abordagem.

Os crimes de racismo ocorridos são revoltantes! Esses casos são apenas alguns exemplos do que acontece diariamente no mundo e ninguém fica sabendo. É 2020 e a pele negra ainda é vista como ameaça. Até quando?

Na política há pouca representatividade negra. Vejamos na Câmara de Cuiabá, onde atuo como vereador: eu sou o único vereador negro dentre todos os 25 vereadores. Na Assembleia Legislativa nenhum dos 24 deputados estaduais é negro. Na Câmara dos deputados, nenhum dos oito deputados federais é negro e a mesma coisa ocorre no Senado Federal, onde nenhum dos três senadores pelo nosso Estado é negro.

A falta de representatividade escancara a diferença de oportunidades, acesso à educação, e mesmo de estímulo social para que negros passem a ocupar cargos públicos.
É importante trazer à reflexão as consequências do racismo, o quanto esse crime destrói emocionalmente e fisicamente suas vítimas, mas também como ele influencia na nossa vida diária, nas pequenas coisas. O racismo enterra sonhos!

Àqueles que acham que o racismo não existe, como exercício de conscientização: faça uma lista de quantos negros você conhece que possuem escolaridade completa, bons empregos ou cargos públicos na política. Converse com eles e pergunte se foi fácil chegar nesses postos.

Caso não conheça nenhum, converse com uma pessoa negra e pergunte porque não conseguiu se formar em uma faculdade e quais as dificuldades que enfrenta apenas por ser negro. Vamos falar sobre isso? Vamos pensar sobre racismo?

 

Juca do Guaraná Filho é bacharel em Direito e vereador por Cuiabá.


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