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22/05/2020 16:34

'Dói na alma': A rotina árdua e as marcas de médica na urgência da covid-19 em Manaus

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“A nossa vida virou de ponta cabeça. O ritmo de chegada dos pacientes e a rapidez com que esse vírus evolui em minutos é muito intensa. Foram tantos pacientes que a gente não conseguiu salvar nos últimos dois meses. Isso muda muito a gente. É algo drástico e dramático mesmo para quem trabalha com saúde há 25 anos como eu. É saber que você não vai conseguir salvar um, dois, três pacientes... No início, foi muito duro. Dói na alma.”

O relato da médica Uildeia Galvão da Silva, de 52 anos, que trabalha há 12 no atendimento de urgência do Hospital Pronto Socorro 28 de Agosto, principal hospital público do Amazonas, localizado em Manaus, é comum entre profissionais que estão na linha de frente do combate à covid-19.

Desde que a pandemia se instaurou no estado, ela trabalha de 12 a 20 horas por dia e, assim como outros médicos e enfermeiros, viu sua rotina ser atravessada pelo novo coronavírus. ”É um vírus completamente novo e diferente de tudo o que a gente já viu”, diz. O estado hoje é o 4º com o maior número de casos e 6º em mortes no Brasil e beira o colapso no sistema de saúde desde o início deste mês.

“A gente vinha de uma situação relativamente ‘tranquila’ no atendimento e, em questão de dias, semanas, o número de pacientes mais do que dobrou. O primeiro mês foi muito difícil. Muitos colegas foram afastados não só por terem contraído a covid-19, mas também por pertencerem ao grupo de risco e por terem doenças psicológicas e psiquiátricas. Lidar com esse momento, na linha de frente, é devastador. E não tem como deixar a peteca cair”, conta.

Em dois meses, o número de mortes e casos confirmados registrou escalada no estado. O primeiro caso foi notificado em 13 de março. Quinze dias depois, no dia 27, este número aumentou para 81. Já no início de abril, 585 mortes foram contabilizadas. Segundo dados mais recentes, divulgados nesta quinta-feira (21) pelo Ministério da Saúde, o Amazonas registra 1.620 mortes e ultrapassou os 25 mil casos da doença. Neste cenário, Manaus concentra os maiores números: 1.094 óbitos e 12.317 casos confirmados.

DIVULGAÇÃO/ARQUIVO PESSOAL
Uildeia Galvão Silva, médica que trabalha na urgência do Hospital Pronto Socorro 28 de Agosto, em Manaus. 'Lidar com este momento, na linha de frente, é devastador.'

Quem trabalha no setor de emergência de um grande hospital, como Silva, está acostumada a fazer tentativas para prolongar a vida dos pacientes o máximo possível. É para este momento entre o tudo ou nada - até para quem espera notícias do outro lado - que eles se preparam. Mas, diante da covid-19, tudo parece ser colocado à prova, até o tempo, os dias, a semana. “O dia a dia vai desgastando a gente demais. Minha rotina mudou toda. E não é só isso. Tudo isso muda você fisicamente”, diz a médica que, assim como muitas outras profissionais, ao fim do expediente, carrega marcas físicas no rosto devido à intensa paramentação. “Tudo dói. E a máscara cria uma distância.”

Distância, que também pode ser oportunidade de se aproximar. “De um certo modo a pandemia aumentou o afeto entre os meus colegas. E essa questão da gente já se conhecer no gesto, no olhar, se fortaleceu. Além disso, tive que criar novos modos de me aproximar, de me conectar com o paciente. Foi uma forma de prestar mais atenção ao outro. Tanto quando eu precisava entender o que ele estava falando através da máscara quanto para me fazer entender.”

A pandemia negou hábitos básicos a ela. Não pode chegar normalmente em casa. Não pode abraçar os filhos. Não pode tomar banho como antes. “Eu não uso o elevador social, eu tenho que chegar e tirar toda a roupa na área de serviço, deixar em um saco, tomar um primeiro banho e aí tomar o banho ‘de verdade’. No meu caso, eu tenho o privilégio de morar em um apartamento com mais de um banheiro. Tudo fica mais demorado porque você tem que ter o cuidado de se descontaminar. O banho, que eu tomava em 20 minutos, hoje demora uma hora. No primeiro mês eu não tive contato físico com os meus filhos. E também por ter me contaminado, eu tive que ter muitos cuidados.”

Entre a luta pela vida e a convivência diária com a morte, uma data importante atravessou o dia a dia de trabalho no hospital: seu aniversário de 52 anos. “Nesse dia, especialmente, eu estava muito sensível. Comemorar uma data em meio a tantas notícias ruins que você tem que dar para outras famílias, que você tem que dizer ‘olha, não deu. Não conseguimos. Seu pai faleceu, seu avô, seu tio’... Isso deixa a gente mal, triste, não tem como passar incólume. Ver o sofrimento da família pela forma como a despedida acontece, ou quando não acontece, é muito difícil.”

Um sistema de saúde em colapso

PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES
Em 12 de maio de 2020, membros do Conselho Regional de Enfermeiras do Amazonas (COREN-AM) realizam protesto silencioso usando máscaras pretas como símbolo de luto pelos colegas que morreram devido à covid-19.

Esta situação vem provocando um colapso no sistema de saúde em Manaus, assim como nos cemitérios municipais da cidade, que chegaram a registrar uma média de sepultamentos quatro vezes maior do que a média nos últimos dois meses - período em que a pandemia se espalhou pelo País. Dados do MS apontam que, no momento, a incidência da doença no Amazonas é de 5.719 por milhão de habitantes e a mortalidade é de 377 por milhão. Há, porém, indícios de subnotificação, fator presente em outros lugares do Brasil devido ao acesso limitado aos testes e à demora no processamento do resultado.

Para atender à alta demanda, Silva conta que o hospital precisou se reorganizar e criar um protocolo de atendimento segmentado - que agravou a rotina dos profissionais de saúde, incluindo ela, que chegou a contrair a covid-19 de forma assintomática. “Eu acho que nem tive muito tempo de prestar atenção nisso [nos sintomas]. Eu estava tão focada em fazer o meu trabalho, passei tanto tempo dentro do hospital fazendo de tudo para melhorar a situação, que não sei dizer se senti alguma coisa”, conta. Ela fez o teste sorológico e foram detectados anticorpos

 

.Governo do Amazonas segue “maus caminhos” na saúde

Os fatores que explicam o cenário caótico no Amazonas vão desde disputas políticas, até baixo isolamento social e característica geográficas. Mas a crise no sistema de saúde no estado não é de hoje. No ano passado, o problema na saúde pública ganhou repercussão nacional, com atrasos nos pagamentos dos servidores, a superlotação no HPS 28 de Agosto, a falta de insumos e greve de profissionais.

Em 2016, o Ministério Público Federal deflagrou a operação “Maus Caminhos”, que investigou um esquema de corrupção na saúde estadual e culminou, em fevereiro, com a prisão de quatro pessoas. O ex-governador do Amazonas, Omar Aziz (PSD), que é atual senador da República, foi indiciado em uma das fases da operação, deflagrada no ano passado. O valor desviado da saúde ainda não foi confirmado, mas estima-se que ultrapasse cerca de R$ 200 milhões.

Durante a pandemia, ainda em abril, o secretário estadual de Saúde, Rodrigo Tobias, foi exonerado e substituído pela biomédica Simone Papaiz. A mudança na pasta foi criticada e agravou a tensão política já estabelecida entre o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), que é a favor de políticas de isolamento social, e o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSL), que é contra e é alvo de pedidos de impeachment.

“Nesse cenário, nós não tivemos aumento no número de profissionais”, relata Silva, que ainda tem uma rotina intensa no hospital - a equipe de emergência, inicialmente, contava com seis médicos que se dividiram para atender em todos os turnos. Atualmente, com integração de equipes, há 12 profissionais. Porém, o atendimento a pacientes que chegam ao pronto-socorro com outras doenças como infarto, diabetes e hemorragias, diminuiu. Por mais que não seja um hospital referência para a covid-19 no estado, a prioridade estabelecida foi atender casos do novo coronavírus.

Muita coisa no sistema mudou, se adequou. Mas agora a gente esbarra na baixa adesão ao isolamento social.Uildeia Galvão, medica que trabalha no pronto-socorro do 28 de Agosto, em Manaus

Devido à escassez de materiais, em especial, os chamados EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), no final de abril, dezenas de funcionários do 28 de Agosto fizeram um protesto em frente à unidade. Ao enfrentar a doença sem equipamentos, a possibilidade de infecção aumenta. Mesmo utilizando todos os padrões de segurança contra a contaminação, a covid-19 tem um alto índice de transmissão entre os profissionais de saúde, cuja estimativa da OMS (Organização Mundial da Saúde) é de até 15%.

Em nota, o governo do Amazonas afirma que “todos os profissionais estão recebendo os EPIs necessários, conforme protocolo de recebimento assinado pelos mesmos. Os equipamentos são distribuídos de acordo com a situação, o ambiente e o tipo de procedimento realizado em suas unidades”. Segundo dados do balanço parcial da FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde), até o momento 1.279 profissionais de saúde foram contaminados em Manaus desde o início da pandemia. Foram contabilizados 12 óbitos.

A médica conta que, desde o início da pandemia, sentiu uma melhora na rotina hospitalar, devido à reorganização e ao aumento de leitos que vem acontecendo de forma gradual. No 28 de Agosto, 40 leitos de UTI foram desocupados e outros 10 foram criados. A enfermaria também foi ampliada com 36 leitos, e outra sala foi adaptada com leitos para pelo menos 30 pacientes infectados pela doença. “No início foi muito mais difícil do que está sendo agora. Neste momento, eu não posso dizer para você que um paciente com síndrome aguda respiratória não será atendido. Hoje tem leito para ele. Desde que tudo isso começou, vimos uma melhora.”

A nossa vida virou de ponta cabeça. O ritmo de chegada dos pacientes e a rapidez com que a esse vírus evolui em questão de minutos é muito intensa.Uildeia Galvão, medica que trabalha no pronto-socorro do 28 de Agosto, em Manaus

MICHAEL DANTAS VIA GETTY IMAGES
Sepultadores abrem novas covas no cemitério Nossa Senhora, em Manaus. 

Essa percepção é vista nos números. Segundo dados mais recentes da Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas, o sistema de saúde pública da capital amazonense teve um aumento de mais de 65% dos leitos em pouco mais de dois meses. As novas instalações aliviaram em certa medida o sistema saúde, que viveu semanas intensas de um colapso iminente, com cenas caóticas de respiradores quebrados e salas lotadas, chegando a quase 100% dos leitos ocupados. Atualmente, a taxa de ocupação é de 82%.

Porém, isso não significa que Manaus chegou a ter diminuição de atendimentos. O levantamento mais recente aponta que houve redirecionamento no fluxo e maior capacitação no tratamento.

Manaus corre contra o relógio para tentar evitar o colapso do sistema de saúde. Nesta semana, o governo do Amazonas enviou ofício à Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do Ministério da Saúde, reforçando o pedido de envio de 20 respiradores para a implementação de leitos de alta complexidade. O estado também concentra cerca de 95% dos casos entre indígenas, segundo a Sesai, o que aumenta o desafio de combate à disseminação da doença. De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a covid-19 já matou 103 índios no País e contaminou 610 de 44 etnias. 

ARQUIVO PESSOAL
Uildeia Galvão (à dir.) e outras duas colegas - durante plantão no Hospital Pronto-Socorro 28 de julho, em Manaus.

“Muita coisa no sistema mudou, se adequou. Mas agora a gente esbarra na baixa adesão ao isolamento social”, diz a profissional. Recomendadas por toda a comunidade científica, as medidas para restringir a circulação de pessoas tanto no Brasil quanto no mundo reduzem a velocidade de transmissão do vírus e têm como objetivo justamente evitar um colapso no sistema de saúde. “Se eu não tivesse tomado todos os cuidados com meus filhos ao chegar em casa, eles poderiam ter sido infectados e o quadro seria muito pior.”

Uma pesquisa divulgada neste mês por especialistas da UFAM (Universidade Federal do Amazonas) mostrou que as medidas de isolamento social em abril foram fundamentais para evitar a morte de mais de 2.500 pessoas pela doença em Manaus. Pesquisadores concluíram que o atual nível de isolamento da capital, de 40%, teve o efeito positivo, mas que é preciso alcançar um distanciamento social mais rígido, entre 60% e 70%. 

Os profissionais de saúde estão fazendo por onde e espero que as pessoas enxerguem isso.Uildeia Galvão, medica que trabalha no pronto-socorro do 28 de Agosto, em Manaus

DIVULGAÇÃO/ARQUIVO PESSOAL
As marcas no rosto são resultado de mais de 12 horas de uso de equipamentos de proteção individual.

“Penso que talvez a gente possa sair dessa pandemia com um sistema de saúde mais fortalecido e fazer que os governantes olhem para o SUS, que tem uma capilaridade muito boa, mas precisa de investimento”, defende Uildeia Galvão Silva. “Pode ser uma visão muito esperançosa, mas é o que eu acredito. Existem várias lições que podemos tirar deste momento, essa é uma delas. Acho que os profissionais de saúde estão fazendo por onde e espero que as pessoas enxerguem isso”, conclui.


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